Em 1980, entrava o primeiro computador na casa de Pierre Mantovani. Aos dez anos, ele já estava programando em Basic. Um tempo depois, na década de 1990, a mistura de arte, tecnologia e cultura passaram a mexer com Pierre, que começou a fazer jingles publicitários com arquivos de som digitais.

Com o tempo, a entrega do profissional aos interesses geeks migraram para a internet e celulares. De lá para cá, pensar como consumidor e aliar-se a tecnologia ajudou a dar destaque ao modelo de negócios de Grupo Omelete, empresa de entretenimento onde é CEO.

Não é à toa que o calendário ganhou o Dia do Orgulho Geek, comemorado nesta sexta-feira, 25. Nesse dia, em 1977, estreava o filme Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança, responsável por trazer a princesa Leia mantida como refém pelas forças imperiais comandadas por Darth Vader. A partir do sucesso da película, o mercado notou como os filmes podiam movimentar a indústria como um todo.

Pierre espelha um cenário que já não tem mais volta: séries, animes, filmes, histórias em quadrinhos, jogos e ciência fazem parte do cotidiano de muitos e, hoje, quem é ligado a esse universo intensamente tem grandes chances de alavancar um negócio. O Meio & Mensagem procurou entender a importância de ser um geek de iniciativas e o impacto que isso tem nos negócios:

Uma questão de mutualidade
Para Pierre Mantovani, quando a empresa conversa diretamente com um público geek, ser e pensar como ele faz diferença. “Sabemos exatamente o que os consumidores gostam e exigem”, diz. Ivan Costa, sócio do evento de cultura pop Comic Con Experience e fundador da agência de quadrinistas Chiaroscuro Studios, afirma que ser um geek facilita na hora de desenvolver produtos e serviços, bem como na criação de um relacionamento sólido com o consumidor.

Na Piticas, fábrica de camisetas especializada em estampas de cultura pop, todos os funcionários são geeks ou pelo menos gostam muito do universo de filmes, séries e games. Felipe Rossetti, um dos fundadores da marca que encontrou junto de seu irmão Vinícius a oportunidade de materializar seu lado nerd, explica que de início a Piticas trabalhou com camisetas de humor, por conta da falta de capital para licenciamentos. Após a primeira conquista, personagens da Disney, Marvel, Warner, Universal e Turma da Mônica passaram pelos produtos da empresa. “Antes de qualquer coisa, o papel do geek no mercado é ser fã. Ser do ramo ajuda a entender a fundo ele”, fala. A Piticas produz 30 mil camisetas por dia e está em mais de 315 lojas franqueadas, espelhadas pelo Brasil.

 

Os geeks Vinícius e Felipe Rossetti fundaram a primeira loja de Piticas em 2008 (crédito: divulgação)

 

Ou ame ou deixe
Nesse segmento, dinheiro é consequência. “Vi alguns aventureiros querendo embarcar no mundo geek pelo lado financeiro e, de fato, isso não funcionou”, afirma João Paulo Sette, CEO do serviço de streaming de histórias em quadrinhos Social Comics. O público é exigente. Mediante a um bom trabalho, um negócio é capaz de capturar uma legião de apaixonados. No entanto, se não atender as expectativas dos consumidores, muitos desistem do modelo proposto e, rapidamente, encontram atividades compatíveis com seus interesses.

Os geeks são conectados e entendem como usar as redes sociais, o que, para Pierre Mantovani, CEO do Grupo Omelete, ajuda no efeito de divulgação espontânea. “Toda a abordagem tem que ser muito transparente e sincera. Promessas sem uma entrega à altura não fidelizam as pessoas”. Uma vez que o relacionamento com as marcas é construído via storytelling, manter um diálogo contínuo com o consumidor é essencial. Segundo Renan Pizzi, CEO da desenvolvedora e loja de figuras colecionáveis Iron Studios, uma relação bem construída e próxima faz que o público vire fã e não cliente. “Qualquer deslize pode significar uma viralização rápida do problema”, diz Felipe, da Piticas.

Para João, na Social Comics, o público não está preocupado com o valor do produto, mas sim se o produto é o que promete. “No nosso caso, como trabalhamos com licenciamento de conteúdos, nem sempre temos os mais procurados disponíveis, o que gera frustração”. Mas, o CEO afirma que, por outro lado, novidades suprem o anseio dos geeks, uma vez que entram em contato com heróis e histórias até então desconhecidas por meio da empresa.

Coleção do Star Wars, da Imaginarium (crédito: divulgação)

Até quem não é, tenta
Na contramão daqueles que colocaram o seu sucesso profissional nas mãos de seus interesses geeks, há quem tenha entendido o potencial desse universo, responsável por ditar tendências de comportamento, moda e consumo. A Imaginarium, que surgiu com o propósito de tornar objetos do cotidiano divertidos, enquadrou coleções e campanhas cocriadas ou associadas a licenças a sua estratégia de reinvenção. “Os licenciamentos do portfólio atual (Star Wars e Harry Potter) trouxeram um público diferente para a marca, sem ferir o DNA”, afirma Thiago Colares, diretor de marca e produto do Grupo Uni.co, dono da Imaginarium.

Apesar de não ter nenhum fundador geek de raiz, a Imaginarium busca entender e conhecer sobre o universo. “Para a definição da comunicação, temos os guides que orientam as criações e o relacionamento com os licenciadores, que também balizam tudo que é lançado e publicado pela marca. As equipes internas se dedicam de forma exaustiva a conhecer o universo de cada licença para que toda a entrega esteja alinhada às expectativas do fã”, clarifica Thiago.

 

O futuro do empreendedor geek
Nos últimos cinco anos, o mundo geek deixou de ser nicho para ser um grande mercado que consome conteúdo e produtos, de acordo com o Felipe. “Existe uma tendência muito grande da migração para as plataformas de conteúdo online e de streaming, deixando mais acessível o conteúdo a todos”, fala. Para Pìerre, do Grupo Omelete, ser geek será obrigatório a todos os empreendedores, uma vez que um entendimento amplo de tecnologia e comportamento digital em todas as áreas e setores será indispensável.

 

Fonte: MEIO&MENSAGEM

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