Turma da Mônica já estampou mais de 4 mil produtos, de 150 empresas – de fraldas e livros a frutas e legumes — Foto: Divulgação

Neste segundo ano de pandemia, com o mercado de licenciamento em desaceleração, Homem Aranha, Bob Esponja, Barbie e Peppa Pig estão apanhando, mais uma vez, da Mônica e seu coelhinho Sansão. A turma criada por Maurício de Sousa está em primeiro lugar entre as marcas mais lembradas pela criançada até 14 anos no Brasil.

E a distância para as outras concorrentes, segundo pesquisa da Licensing International, aumentou do ano passado para este. Monica’s Gang, como está no estudo, fica com 5,1% das menções, enquanto a segunda colocada, a Nike, tem 3,5%. O influenciador Luccas Neto aparece em terceiro lugar, com 3,1%, e o Homem Aranha em sexto, com 1,7%, logo abaixo do craque de futebol Neymar, com 2,5%.

Para crianças até 2 anos, a fatia da Turma da Mônica é de 6,4%, contra 4% da Galinha Pintadinha e 3,6% do Mundo Bita. Só depois vêm as outras marcas internacionais e brasileiras. A pesquisa é feita anualmente em 40 diferentes países. No Brasil foram consultados por computador os pais de 2.389 crianças até 14 anos, nas 15 maiores cidades do país, em abril deste ano. A amostragem é proporcional aos diferentes estratos populacionais e geográficos.

Até antes de pandemia, 2019, o Brasil era o país que mais crescia em licenciamento de marcas e personagens entre os 10 maiores mercados desse setor: 12% em relação ao ano anterior, movimentando US$ 5,2 bilhões. Passou Holanda e Itália e encostou na França, a sétima colocada.

No ano passado, segundo Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens (Abral), o mercado de licenciamento movimentou R$ 21 bilhões e cresceu 5% em relação a 2019. Este ano, segundo a presidente da Abral, Marici Ferreira, o volume de negócios deve empatar com o do ano passado, com destaque para licenciamento de produtos para animais de estimação, brinquedos e decoração.

A Turma da Mônica ganhou impulso com a aproximação das famílias durante a pandemia. “A Turma da Mônica é a única que fala para quatro gerações ao mesmo tempo”, diz Rodrigo Paiva, diretor de licenciamento da Maurício de Sousa Produções.

Nos últimos sete meses, a Turma da Mônica cresceu 5% como favorita entre as crianças, enquanto a Galinha Pintadinha, segunda colocada, manteve seus percentuais, segundo pesquisa da Kidscorp, empresa especializada em marketing infantil que tem como clientes Cartoon Networks, Disney, Nickelodeon, Netflix, Lego e Coca Cola, entre outros.

Com o mercado em desaceleração, novos modelos de negócios estão sendo fechados como os “colab”, de parceria, ou contratos de prazo mais curto. A presidente da Abral diz que a indústria de roupas vem se associando a marcas de tinturas de cabelo ou de maquiagem para edições limitadas. A Artex produziu toalhas com a marca do programa de televisão Big Brother.

Uma explicação para o fato da Turma da Mônica ser mais lembrada pelas crianças brasileiras neste ano é a “reação” de suas personagens ao cenário atual de pandemia. “A Turma da Mônica é um aconchego, um acalanto para as crianças”, diz a dirigente da Abral. “Os personagens acompanharam com muita agilidade as necessidades das famílias na pandemia”, observa.

Cascão, que tinha horror a chuveiro, passou a lavar as mãos, seguindo a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). A Turma da Mônica passou a dispor de uma plataforma totalmente dedicada aos aconselhamentos e práticas recomendadas pelos médicos durante toda a pandemia.

Durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, neste ano, a medalha de prata do skate, Rayssa Leal, foi aplaudida por toda a Turma, no dia seguinte da conquista. A cantora Marília Mendonça também virou personagem das histórias de Maurício de Sousa, após a tragédia que tirou sua vida.

“A Turma da Mônica registra ao longo do tempo o cotidiano das pessoas quase como um jornal”, diz o diretor da empresa. Essa agilidade só é possível hoje por causa dos meios digitais, comenta o CEO da Kidscorp, Demian Falestchi. “Há uns 10 anos, a programação comercial de uma TV demorava um ano ou dois”, recorda.

Na Maurício de Sousa, o conteúdo editorial não muda, acrescenta Paiva, “mas atualizamos os formatos e as histórias”. Desde 2013, uma versão da Turma sem textos, a Monica Toy, está no meio digital para alcançar audiências do mundo inteiro. “Só no Youtube a Turma da Mônica já teve mais de 14 bilhões de visualizações”, calcula o diretor.

Com todo esse prestígio, não é surpresa que os personagens tenham abocanhado o licenciamento de quase 4 mil produtos de 150 empresas, desde fralda, artigos de higiene, brinquedos, material escolar, livros, revistas, artigos de festas e alimento.

Os produtos in natura tiveram um crescimento maior de 2018 para cá. Para ajudar as mães com alimentos menos populares, entre as crianças, 40 tipos de frutas, verduras e legumes levam marcas de seus personagens.

Brócolis, couve-flor e aipo ganharam selo da Mônica, Cebolinha e Cascão. Além da tradicional maçã da Mônica, já estão nas gôndolas de supermercados a melancia da Magali, uva, e abacate com outros personagens.

No ano da pandemia, entraram no cardápio da Mônica laranja, mamão, ovos de codorna e mangas. Este ano foi a mexerica que recebeu o selo do pessoal de Maurício de Sousa.

Entre as empresas que usam as marcas da Mônica estão Itaueira, Fischer, Agrodan, Tsuge, Agrivale, AGC, Trebeschi e Alfacitrus.

“Alimentação saudável é outra tendência que a pandemia acelerou”, constata a presidente da Abral, “outro hábito que veio para ficar”.

Na esteira dos super-heróis Vingadores da Marvel, a Vapza, do Paraná, está lançando agora alimentos especialmente certificados, sem corantes ou conservantes, em embalagens a vácuo, prontos para o consumo.

O mix de arroz integral e quinoa vermelha tem a chancela do Hulk, já o peito de frango com mandioquinha recebe o selo do Capitão América, e a canja de galinha com arroz integral é da Capitã Marvel.

A Vapza trouxe da França para o Brasil a tecnologia de cozimento de alimentos dentro da própria embalagem. “As latas estão saindo das prateleiras nos países europeus e Estados Unidos”, observa Enrico Milani, CEO da empresa.

Fonte: Valor