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“São as empresas de games, e não as big techs, que vão dominar o metaverso”, diz criador dos Angry Birds

Para Peter Vesterbacka, ex-CEO da Rovio e mente por trás dos ‘pássaros furiosos’, as empresas de games serão capazes de gerar experiências totalmente novas, não apenas no metaverso, mas também no mundo real

Peter, criador dos Angry Birds (Foto: Divulgação)
O finlandês Peter Vesterbacka, criador dos Angry Birds (Foto: Divulgação)

Lançado em 2009, Angry Birds foi o primeiro jogo de celular a atingir 100 milhões de downloads ainda no primeiro ano. Hoje são mais de 5 bilhões de aplicativos baixados em todo o mundo. 93% da população chinesa e 91% dos habitantes da Índia já instalaram o game em seus celulares, e 9 em cada 10 pessoas no mundo já ouviram falar da marca.

Nada mal para um empreendedor finlandês que até então tinha lançado uma dezena de startups, entre elas Slush e Startup Sauna, sem nenhum grande sucesso. Na Rovio, fundada em 2003, Peter Vesterbacka encontrou seu verdadeiro talento e se transformou no Mighty Eagle (numa tradução livre, Águia Poderosa), título que ele sempre preferiu, em vez do tradicional CEO.

Em 2011, a águia foi reconhecida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Cinco anos depois, ele deixou a Rovio e partiu para novas aventuras, em empresas como Mobile Monday e FinEst Ninja. Hoje, aos 54 anos – mas ainda vestindo seu moletom vermelho com o desenho dos Angry Birds -, ele assiste dos bastidores à explosão do mundo dos games e sua convergência para o metaverso.

Questionado, não confirma nem desmente uma possibilidade de voltar à ativa nesse novo universo. Enquanto isso não acontece, segue mentorando as novas gerações de empreendedores que criarão os mundos virtuais do futuro. Confira abaixo a entrevista exclusiva que ele concedeu à Época NEGÓCIOS.

Época NEGÓCIOS – Depois de um sucesso enorme no universo dos games, você fundou a FinEst Future, uma empresa mais ligada à educação. Como isso aconteceu?

Peter Vesterbacka – Existe uma área que corta a Estônia, a Finlândia e a Dinamarca chamada de FinEst Bay. Se você olhar o número de startups, o número de unicórnios e o valor investido por Venture Capital per capita, nós superamos qualquer outra região do mundo, até mesmo a China e o Vale do Silício. O problema é que temos uma enorme escassez de talentos. Só na área de games, precisamos contratar 1.500 pessoas por ano – em todo o setor de tecnologia, seriam 13 mil por ano. Então precisamos trazer muita gente de fora. Mas existe uma resistência grande de universitários e fundadores em ir para a Finlândia, por causa do idioma.

Então decidimos que íamos acabar com esse obstáculo, ensinando o idioma para estudantes no ensino médio, em seu país natal, para que depois eles cursem universidade aqui e se estabeleçam, seja como fundadores, seja como funcionários na área de tecnologia. Esse é o nosso objetivo com a Finest Future. Para isso, temos o apoio do governo e parcerias com diversas escolas. Por enquanto está funcionando: para o próximo ano, já estão inscritos 3 mil estudantes. Nosso objetivo é chegar a 15 mil.

O que levou você a mudar completamente de segmento?

Isso é algo que sempre me preocupou, essa escassez de talentos no meu país natal. De certa maneira, me sinto responsável por isso. Quando você cria uma empresa de sucesso, isso ajuda o ecossistema a crescer, e daí são necessários mais profissionais para trabalhar. Então é justo que eu trabalhe para garantir o sucesso das futuras gerações. Na Rovio, nós fomos de 12 para 850 pessoas em muito pouco tempo, porque contratamos muitas pessoas de todo o planeta. Então quero que outros sejam capazes de fazer isso também. E para mim, pessoalmente, é algo que me traz muita alegria. É muito bom encontrar gente jovem e ver como eles estão dando os primeiros passos no mundo das startups. E, claro, é um bom negócio também.

Você também é um investidor, certo? Em que tipo de startup?

Eu sou um investidor anjo em 50 empresas, que vão de carros elétricos a chocolates. E trabalho com várias que lidam com games e com o metaverso. Mas, para mim, o maior critério é o time, e se a empresa está fazendo algo realmente único. Gosto muito de compartilhar minhas experiências e atuar como um mentor para esses empreendedores iniciantes.

Acho que o mais importante é pensar em como você vai se destacar naquele segmento. Quando colocamos os Angry Birds no mercado, havia 700 jogos sendo lançados todos os dias. Hoje é muito mais. Então você tem que ter um diferencial forte. Passamos meses pensando em cada detalhe do jogo: fizemos 40 designs diferentes para o ícone do aplicativo, por exemplo. Sabíamos que tudo tinha que ser fantástico: produto, personagens, marketing. E foi o que fizemos. Outra maneira de se destacar foi o nome. Até hoje as pessoas me param na rua para perguntar: “Por que os pássaros estão furiosos?” (risos). Foi essa exatamente a intenção com esse nome. Acredito que todas as marcas precisam gerar uma reação forte ou uma pergunta. Então esse é um exemplo perfeito de branding.

Para Peter, o nome Angry Birds gera uma pergunta, e por isso é um exemplo perfeito de branding (Foto: Divulgação)
Para Peter, o nome Angry Birds gera uma pergunta e, por isso, é um exemplo perfeito de branding (Foto: Divulgação)

Vocês foram além da indústria de games e se transformaram em uma empresa de entretenimento, antecipando um movimento que só ganharia força dez anos depois. De onde veio esse insight?

Acho que nós definitivamente tínhamos uma visão de como a empresa deveria atuar. Nunca nos vimos como apenas uma startups de games. Mas acho que o que contribuiu para isso foi que criamos 51 jogos antes de chegar àquele que finalmente faria sucesso. Nesse meio tempo, decidimos que, quando um jogo explodisse, iríamos levá-lo para todos os lugares. Não tínhamos medo de tentar áreas diferentes, estratégias diferentes. Então logo fomos para a animação, filmes, produtos, tudo o que você pode imaginar. E fomos muito criticados por isso na época. Mas sempre acreditei em proporcionar experiências em todos os formatos possíveis para os nossos fãs. Hoje isso virou uma prática disseminada, em empresas como Epic Games, Disney, Netflix, Amazon.

A indústria de games deu um salto enorme da explosão dos Angry Birds para cá. Como você vê esse movimento?

A transformação foi profunda ao longo dos anos. Se, lá no começo, estávamos limitados aos consoles criados por Nintendo e Microsoft, hoje praticamente todo mundo tem um smarphone na mão o tempo todo, e pode acessar qualquer jogo com um toque. Foi isso que possibilitou essa explosão massiva, fazendo com que os games chegassem a toda parte. Agora estamos vivendo um momento muito interessante, de convergência, com diferentes segmentos se unindo para desenvolver novas experiências. Isso está acontecendo muito com o metaverso, com grandes empresas como Facebook, Google e Apple de um lado, e as companhias de games do outro. Será muito interessante ver o que acontece. Se fosse para apostar, apostaria no lado dos games. Eles vão desenvolver muitas experiências novas antes de qualquer um.

Então você acha que as companhias de games vão dominar o metaverso?

Acredito que elas estão numa posição fantástica para alcançar o sucesso rápido dentro dessas novas experiências. A Epic é a minha favorita, mas não podemos descartar empresas como Sony e Microsoft. E há ainda as companhias chinesas, como a Tencent, dona de muitas empresas de games. Não podemos esquecer que o mercado chinês desenvolve muitas coisas em segredo, sem que nós fiquemos a par. É como o TikTok, que chegou de mansinho e tomou conta do mundo. Do lado das Big Techs, sou bem cético a respeito da transformação do Facebook em Meta. É muito difícil para uma empresa se reinventar dessa maneira, mesmo tendo todos os recursos que eles têm. Empresas como Microsoft, IBM e Apple conseguiram se reinventar ao longo do tempo. Mas, com o Facebook, tenho minhas dúvidas.

De maneira nenhuma. Não acho que será uma única experiência. Eu acredito que as novas tecnologias, com melhores telefones, câmeras, sensores, vão proporcionar muitas experiências diferentes, em mundos virtuais, mas também no mundo real, com a realidade aumentada – que vai enriquecer muito as nossas experiências no dia a dia. Não imagino as pessoas colocando um óculos de realidade virtual para desligar do mundo. Se tem uma coisa que a pandemia nos ensinou, é que as pessoas querem estar ao lado de outras pessoas. Somos muito sociais. E, pelo menos até agora, não existe um substituto para a realidade.

Eu realmente espero que consigamos manter o metaverso aberto. Seria muito ruim se tivéssemos uma única companhia, como Google, Facebook ou Apple, dominando esse universo. Veja bem, hoje em dia nós temos a tecnologia blockchain, que é usada pela web3, pelas criptomoedas, por muitos players. Então espero que as novas possibilidades virtuais sejam bem distribuídas, e todos tenham a chance de participar, sem monopólios. Isso será muito importante para todos nós.

Diante desses novos desenvolvimentos, você não tem vontade de voltar ao mundo dos games e ser novamente a Águia Poderosa?

Fonte: Época Negócios

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