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Turma da Mônica: A Série é como aquele gibi que a gente guarda para sempre

Com mais leveza e menos compromisso, produção é mais um acerto da MSP

Globoplay Divulgação

As duas produções da Turma da Mônica em live-action, Laços e Lições, foram perfeitas adaptações de suas Graphics MSP, aquelas HQs grandes, de capa dura. As tramas mais aprofundadas, que tratam da formação de cada um de nossos queridos personagens, foram levadas para a telona com a carga dramática que merecem, uma que tem um peso diferente das descompromissadas e clássicas revistinhas. E peso é exatamente a ênfase aqui; a nova produção live-action da turminha, Turma da Mônica – A Série, está para os filmes recentes como o gibi mensal está para as Graphics MSP de capa dura.

Isso não é, de jeito nenhum, um desmerecimento. É uma escolha narrativa que, já enfatizo, não perde em nada da habilidade que a equipe liderada pelo diretor Daniel Rezende tem de levar sentimento às telas. Acontece que enquanto Laços e Lições focaram no amadurecimento de Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo), Cebolinha (Kevin Vecchiato) e Cascão (Gabriel Moreira), A Série já encontra seus personagens desenvolvidos, e envolvidos em uma trama muito mais casual. Não é que eles não aprendam e cresçam com os eventos aqui, mas o seriado trata da pré-adolescência de modo mais rotineiro e leve.

Lançada quase de surpresa no Globoplay – isso porque o aviso de lançamento e a chegada da série na plataforma aconteceram com menos de um mês de diferença – Turma da Mônica – A Série é a primeira aventura da equipe de Rezende em uma história original com a turminha. Focando na chegada de Carminha Frufru (Luiza Gattai, mais uma escolha perfeita do casting) ao Bairro do Limoeiro e todo o impacto que a garota causa, a série já acerta em tom por levar o grupo de personagens para um gênero ainda inédito nas telas mas comum nas HQs da Turma: o investigativo. Aqui, existe um mistério sobre quem derramou lama na cabeça de Carminha e a investigação é liderada pela ótima Denise, interpretada por Becca Guerra com toda a classe e estilo que a personagem exige.

E enquanto todos são interrogados (dando a cada coadjuvante seu lugar no centro), e a história ganha novas camadas com cada depoimento, segredos são trazidos à tona e claro, sentimentos também. A habilidade com que a roteirista Mariana Zatz explora os personagens baseando-nos nas inseguranças da pré-adolescência é certeira, não só por traduzir a ansiedade, as paixões e os novos hormônios com graça, mas porque tudo isso é feito sem nunca precisar ser colocado de modo expositivo. Enquanto as pressões de cada um são exploradas individualmente, Zatz também mostra que sabe equilibrar realismo e cartum, entregando humanidade sem nunca tirar de cada um dos personagens o que os faz mais “Turma da Mônica”.

Nesse universo live-action, por exemplo, a série traz a primeira vez que Mônica exibe sua força sobrenatural, mostrada de modo passageiro em uma cena no clubinho. Cascão também, que no live-action sempre foi tratado com certa dúvida quanto sua rotina de higiene, é aprofundado de uma vez por todas, e sua jornada aqui talvez seja a mais simbólica. O desenvolvimento do seu medo para reclusão e enfrentamento são refletidos no surgimento de outro personagem icônico da Turminha, colocado de modo literal, mas em significado super metafórico. O último episódio, inclusive, trata isso de frente em uma cena tocante que envolve todos os personagens.

A escolha de não fugir do cartunesco também funciona porque A Série complementa sua narrativa com uma vontade de abusar dos recursos permitidos nesse formato. A idéia de sonorizar cada piscadela de Carminha e embalar a Turma do Bermudão com uma trilha estilosa e ameaçadora coloca o espectador na posição dos protagonistas – que se encantam com os olhos azuis da nova moradora do Limoeiro e se sentem ameaçados por aqueles que são exemplo, as crianças minimamente mais velhas do bairro.

Os coadjuvantes, no entanto, não são as únicas ameaças nessa fase da pré-adolescência. Turma da Mônica: A Série é também espertinha por não fugir de conflitos internos ao quarteto – como a ótima cena em que Magali questiona a maquiagem da Dona da Rua, o ciúmes que existe entre Mônica e Cebolinha e até a traição deste com seu melhor amigo. Em todo esse contexto, é impossível deixar passar a chance de derramar elogios ao elenco. É uma pena que a MSP tenha confirmado a escalação de outros nomes para o futuro da Turma da Mônica em live-action. Giulia Benite, Laura Rauseo, Kevin Vecchiato e Gabriel Moreira só cresceram em seus papéis, e vê-los fazendo cada vez uma coisa nova é um deleite para os fãs.

Turma da Mônica: A Série é uma empreitada diferente dos esforços cinematográficos, uma aventura mais descompromissada que lembra aqueles gibis com as histórias mais gostosas de revisitar, que a gente guarda para sempre. É até engraçado como o sentimento que bate é similar. Por mais que sejam oito episódios, a história contada na primeira temporada de Turma da Mônica – A Série não dura mais que alguns dias, e sua estrutura de investigação – que vai e vem entre diferentes pontos de vista no mesmo acontecimento – apelam para a experiência de revisitar a mesma temporada várias vezes, como a gente fazia com nossos gibis mais queridos.

Fonte: Omelete

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