Capa da revistinha
Capa da revistinha “Monica and Friends”, publicada no Japão
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“Criança é igual em todo planeta. Todas são curiosas e gostam de histórias criativas e com humor”, diz Mauricio de Sousa, 85. Pai da Turma da Mônica, o cartunista brasileiro é autor de quadrinhos que têm uma longa história com o Japão, a terra do mangá.

Começou em 1974, quando Horácio (o filhote de Tiranossauro Rex) teve suas histórias veiculadas no Ichigo Shinbun, publicação da Sanrio que circula até hoje.

A parceria com a empresa, criadora de personagens como Hello Kitty e o sapo Keroppi, durou dois anos ininterruptos e continua com participações pontuais do dinossaurinho verde no jornal e projetos de divulgação da Hello Kitty no Brasil.

“Mauricio e Tsuji Shintaro, o criador da Sanrio, são amigos até hoje. Sempre que ele vai ao Japão há um encontro entre os dois”, conta Enio Kuruma, da área de Negócios Internacionais da Mauricio de Sousa Produções.

Quase 50 anos depois, a ponte entre o Japão e o Bairro do Limoeiro, onde mora a turminha, continua sendo fortificada por novos projetos e produtos — desde 2018, existe um escritório próprio da empresa em Tóquio, com quatro funcionários (três deles japoneses).

Em agosto, o estúdio deve estrear no mercado editorial japonês com livros, no formato impresso e digital. Depois, também pretende lançar revistas próprias com histórias da Turma da Mônica clássica, Turma da Mônica Jovem e graphic novels (gênero mais longo e elaborado de quadrinhos).

As histórias da Turma são universais e as características dos personagens são bem marcantes, o que faz o público se identificar. Quem não conhece alguém que tenha personalidade forte e fique bravinha de vez em quando, ou uma pessoa cheia de ideias e planos infalíveis? Ou, ainda, que tenha medo de algo ou adore comer?”Mauricio de Sousa


Entrada da exposição “Configurando o Futuro”
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Em abril, a produtora já deu um primeiro salto: “Monika & Furenzu” (como “Monica and Friends” foi traduzido em japonês) estreou no programa Hapikura, da japonesa Kids Station. Ligada à Sony, a emissora tem na programação animes do porte de Pokémon e Dragon Ball Z.

“Os números de audiência têm impressionado o canal. Temos mais episódios programados para lançar na grade e a intenção é que essa parceria perdure”, diz Mauricio, em entrevista por e-mail à reportagem de Nossa.

Já a Turma da Mônica Toy, versão em toy art da turma do gibi, foi veiculada na TV Fuji, outra emissora japonesa. Na série, os personagens dançam com a comediante e influenciadora Naomi Watanabe, sensação no Japão com 9,5 milhões de seguidores no Instagram — apelidada de “Beyoncé do Japão”, ela fez fama depois de coreografar passos de dança da estrela norte-americana.

https://youtu.be/GndZ68E1Y9E

Interesse econômico, relação afetiva.

Como se sabe, o Japão é uma referência mundial em mangá, o que também faz do país um mercado cobiçado e desafiador. “Entrar no mercado japonês, conhecido pela inovação, sofisticação e qualidade, valida a Mauricio de Sousa Produções a entrar em qualquer outro”, avalia Enio.

De acordo com a Licensing Industry Merchandiser’s Association (LIMA), associação da indústria de licenciamento, o arquipélago é ainda o terceiro mercado mundial de produtos licenciados, atrás apenas de Estados Unidos e Reino Unido. Já o Brasil deve muito de seu oitavo lugar à Turma da Mônica, que estampa de fraldas a pacotes de maçã.

“Estamos nas principais categorias do varejo brasileiras. Acreditamos que nosso conteúdo é universal e, por isso, pode estar em outros países”, acrescenta.


Exposição “Configurando o Futuro”, na Embaixada do Brasil em Tóquio
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Mas investir em um mercado tão competitivo e distante também tem explicações afetivas, que remontam a relação do cartunista com o Sol Nascente anterior aos negócios.

Na infância em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, Mauricio tinha muitos amigos descendentes de japoneses. Na juventude, casou-se com a nissei (filha de japoneses) Alice Takeda, hoje diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções.

Mauro Takeda e Sousa, um dos filhos do casal que viraram personagens da turminha, inspirou a criação do Nimbus, garotinho com feições asiáticas fã de meteorologia.

Em 2008, a influência do mangá levou à criação da Turma da Mônica Jovem, considerado um sucesso com tiragem de mais 500 mil exemplares.

Laços de amizade

Se Mauricio de Sousa é o pai da Turma da Mônica, Osamu Tezuka (1928-1989) é tido como o pai do mangá moderno. Criador de personagens como Astro Boy e Kimba, Tezuka é considerado por Maurício como seu “irmão japonês”.

Eles se encontraram pela primeira vez no Japão, em 1985. Depois se viram outras vezes, como quando o mangaká (como são chamados os desenhistas de quadrinhos) viajou ao Brasil e visitou a Amazônia. E se viram pela última vez poucos dias antes da morte de Tezuka, em 1989. Mauricio recebeu a notícia pouco depois de voltar ao Brasil.

A amizade entre eles rendeu projetos póstumos com o estúdio de Tezuka, como quatro revistas com crossover entre os personagens (uma delas sobre a Amazônia, conforme um desejo dos dois cartunistas) e a colaboração para a história “A noite da princesa”, publicada na revista Tezucomi durante a comemoração dos 90 anos de Tezuka, em 2018.


Fachada da Embaixada do Brasil em Tóquio, na exposição “Configurando o Futuro”
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A relação também foi lembrada na exposição “Configurando o Futuro”, na Embaixada do Brasil em Tóquio, que ficou em cartaz até o fim de junho. Planejada durante dois anos, a mostra (transformada em visita virtual por causa da pandemia) teve trabalhos de alunos da Escola de Design de Shizuoka desenvolvidos especialmente para ela e um painel com imagens da Turma da Mônica em frente ao prédio da embaixada.

Ordem do Sol Nascente

Projetos institucionais e relações diplomáticas, aliás, são outra vertente do trabalho do cartunista no Japão.

No Programa Novo Mundo, por exemplo, há cartilhas feitas por ele para ajudar filhos de imigrantes brasileiros a se adaptar às escolas japonesas e ao novo país. Na história, a Turma da Mônica se muda para o Japão e aprende a conviver com os novos costumes, a rotina escolar e o idioma — há versões em português e japonês, para os alunos nativos e professores.


Música de cartilha da Turma da Mônica ensina a lavar as mãos em tempo de covid
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“Vejo interesse tanto dos alunos brasileiros, que normalmente já conhecem os personagens, quanto dos japoneses”, diz Thiago Fernando Silva, coordenador de relações internacionais do governo da província de Shizuoka, onde fica Hamamatsu, a cidade com maior concentração de brasileiros per capita do Japão. Thiago usa o material como parte de uma apresentação sobre cultura brasileira nas escolas da província.

Em 2007, Mauricio foi convidado pelo comitê organizador das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil a criar personagens para celebrar a data — nasceriam, assim, Keika e Tikara.

Em 2020, lançou a animação “Laços de Amizade”, sobre os 30 anos da imigração brasileira no Japão. Entre os marcos dos dois fluxos migratórios, o cartunista recebeu a honraria da “Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro com Roseta”, concedida desde 1875 pelo imperador àqueles que contribuíram para a divulgação da cultura japonesa.

https://youtu.be/6Pb9z9Mx2iU

De um lado do mundo ao outro, imigrantes “se aventuraram pelos oceanos em longas travessias e enfrentaram os primeiros percalços do desconhecido com coragem e esperança”, certa vez escreveu o autor.

Eles abriram caminho para nossa rota de amizade entre brasileiros e japoneses. Banzai!”

Fonte: Uol