O longa terá direção de Pedro Vasconcelos, o mesmo de ‘Fala Sério, Mãe!

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo 

19 de agosto de 2019 | 20h41

É uma bela história de empreendedorismo social e econômico, mas talvez não seja bem essa a que o diretor Pedro Vasconcelos quer contar. O menino pobre que passou fome – sim! – e venceu na vida. Criou um império, a Mauricio de Sousa Produções, que se expande cada vez mais. A quarta, 14, foi um dia típico na empresa, localizada num condomínio que abriga diversas firmas na Marginal. Na portaria, chama a atenção o cãozinho. É a quarta geração de Bidu, que foi o primeiro personagem publicado em tiras por Mauricio de Sousa, quando ainda era um jovem desenhista, buscando seu espaço.

Bidu é um astro. Neste momento – meio da tarde –, cerca de 400 funcionários trabalham a todo vapor (desenhando, criando) e um grupo de crianças percorre as instalações. “Todo dia tem visitantes aqui”, explica a funcionária responsável por Bidu, no dia a dia da empresa. “E muita gente, senão todo mundo, quer fazer selfie com ele.”

Um dia comum na MSP, como é que é? Não pode ser comum o dia em que o diretor vem mostrar a seu personagem o primeiro rascunho do roteiro sobre ele – abaixo. E muito menos comum, ainda, o dia em que, no almoço, Mauricio de Sousa encontrou-se com representantes chineses que fizeram todo o caminho desde a Grande Muralha para entabular negociações. Mauricio já produz material para integrar os filhos de brasileiros no Japão. São extensas tiragens, na casa dos milhões. E agora a coisa pode ser maior ainda. Um grupo editorial chinês está interessado em levar seus conteúdos para publicação em livros e revistas, e o mercado da China conta-se em bilhões de consumidores. Turma da Mônica made in China?

O próprio Mauricio sai de uma sala de reuniões e vem para outra, onde estão o repórter, o diretor e alguns de seus assessores, incluindo o diretor de Licenciamento, Rodrigo de Medeiros Paiva. Mauricio já publicou sua história em crônicas num jornal do interior. Foram reunidas em livro. Publicou uma autobiografia, que o diretor Pedro Vasconcelos leu. “Estava lendo e já pensando que aquilo dava filme, uma história que gostaria de contar.”

Diretor de sucesso na Globo, com incursões pelo cinema – a Dona Flor de Juliana Paes, Fala Sério, Mãe!, com Ingrid Guimarães e Larissa Manoela –, Vasconcelos foi seduzido pelo Mauricio desconhecido, ou pouco conhecido. “Ele saiu do interior e veio para São Paulo porque queria ser cartunista, criar suas tiras, seus gibis, seus personagens.” A primeira tentativa foi na Folha. Mauricio mostrou seus desenhos e, de cara, o responsável jogou o maior balde de água fria no seu entusiasmo. “Disse que não eram bons (os desenhos), que aquilo nunca ia dar dinheiro, que ele não seria o Walt Disney brasileiro.”

Outro jornalista foi mais sensível. O desenho realmente não era muito bom, mas tinha potencial. Percebendo a dificuldade do garoto – que, afinal, deixara casa e família para tentar a sorte na capital –, disse que poderia ficar ‘por ali’. Mauricio começou a trabalhar e, um dia, publicou a primeira tira – Bidu! E foi assim que tudo começou. O império. Nesta quarta, 21, ele recebe a homenagem do Festival de Gramado. Está aí com o cãozinho, mas não é o Bidu original, que se foi há muito. A quarta geração!

Enquanto o fotógrafo arruma o set para a foto, ela sai da sala próxima. Ops! Essa eu conheço, pensa o repórter. Claro, é a Mônica original, a filha que foi inspiração para Mauricio de Sousa criar sua personagem mais emblemática, que virou turma. A Turma da Mônica. Ele sorri um sorriso zen. Disse que, se há uma coisa que aprendeu esses anos todos – está com 83 –, é que mais vale estar bem consigo mesmo e com a equipe do que tentar se impor no grito. “De vez em quando, faço um teatrinho para meter medo”, brinca.

Sua única preocupação, por enquanto, vem na forma de uma advertência ao diretor, que ele reafirma para que todo mundo ouça, na sala de reuniões. Tudo bem que a história pode ser bonita, uma história de luta, perseverança, de superação. “Só não pode ser, como é que se diz? Chapa-branca.”

Sugere que Pedro Vasconcelos procure suas ex, para incrementar o roteiro. Mauricio casou-se três vezes, duas mulheres morreram e a terceira é Alice Takeda. Teve filhos com todas, e até um quando estava separado. A história de superação teve momentos muito dramáticos, como se deduz de informações sobre Mauricio na internet. Sequestro, morte. Ninguém amadurece sem dor. “É uma grande história, o diretor só não pode errar”, agora quem diz é o próprio Pedro Vasconcelos.

Nas fotos que ilustram esta página, Mauricio de Sousa aparece com sua criação – a versão live action de Bidu – e o diretor Pedro Vasconcelos, no momento em que esse lhe entregava a sinopse do que será o primeiro filme sobre o cartunista, empresário e escritor. Mauricio é membro da Academia Paulista de Letras. Vasconcelos brinca – “Terá de ser uma série. Só na infância já tinham 100 páginas de sinopse para o roteiro.” Mauricio, que aceita tudo menos um filme chapa-branca, impõe mais uma condição. “Não pode ser chato.”

Ele tinha 36 anos quando criou Mônica. Sempre sonhou com a versão live action de sua personagem mais conhecida. Foram quase 50 anos, até concretizá-la. Mauricio só tem elogios para o diretor, Daniel Rezende, e a atriz que fez o papel, Giulia Benite. “Ela é danadinha. Encarnou a Mônica que sempre sonhei.” Conta que Turma da Mônica – Laços estava apontado para estrear nas férias de verão, mas ele foi aconselhado por distribuidores de Majors a segurar, porque já havia muitos grandes lançamentos em janeiro.

“Me contactaram de novo antes que a Mônica saísse, em julho. Foi uma coisa amigável, mas me tentaram fazer ver que haveria muita concorrência – Toy Story 4O Rei LeãoPets. Falaram que era para me poupar, para evitar vexame. Mas a Mônica, com toda concorrência, foi e ainda está sendo um sucesso. Merecido, porque é um filme muito bom, com aquele elenco maravilhoso. Toda a criançada é sensacional.”

Por falar em elenco, Pedro Vasconcelos já pensou em quem será seu Mauricio de Sousa? “Essa história cobre um período muito grande. O Mauricio criança, o jovem, o adulto.” O repórter observa que, por revelar o Mauricio pouco conhecido, o ideal talvez fossem atores iniciantes, e até não profissionais, mas isso talvez seja difícil porque Vasconcelos é ligado à Globo e tem à disposição todo o elenco global que quiser. Por enquanto, só tem um nome, ainda sonhado. “Que voz melhor que a de Tony Ramos para amarrar toda essa vida extraordinária?” Antes, ele ainda realiza Fala Sério, Mãe! 2.

Fonte: O Estado de São Paulo