Filmes como Abe e O Pergaminho vermelho injetam gás num filão com grande potencial no Brasil. Produtores experientes e criadores seguem estratégias para a renovação do público

 (crédito: Divulgação)
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Um universo rentável e crescente tem ocupado sistematicamente espaço no streaming e impulsionado uma onda de realizações no cinema nacional: a das produções voltadas para jovens na faixa de transição entre a infância e a adolescência. Lançado há mais de dois anos, o live-action da Turma da Mônica (Laços), por exemplo, levou mais de 2 milhões de espectadores às filas dos cinemas. Fator que gerou a expectativa a ser cumprida, em 2021: a continuação, com a produção de Turma da Mônica – Lições.
“Nos concentramos em metas como a de nunca tratar o público juvenil como menos inteligente ou menos capacitado. Respeitando as faixas etárias, as crianças e os jovens são bem mais espertos e sagazes do que nós adultos pensamos. Nunca se pode esquecer de que fomos crianças um dia”, conta o diretor de ambos os filmes, Daniel Rezende, que sublinha a disposição irrestrita de ser o mais fiel possível aos personagens criados por Mauricio de Sousa. Com verdade, e razão que fundamente a realização do filme, as chances do público infantojuvenil se conectar aumentam muito”, acrescenta.
Inspirado pelo nascimento do sobrinho Joaquim, filho de casamento entre famílias judaica e católica, o diretor Fernando Grostein Andrade investiu, ao longo de 13 anos, num projeto de alugar destinado aos ultrajovens, como ele diz. Mesclando universos palestino e judaico, Fernando Grostein assumiu a direção de Abe, longa que abraça, entre outras, mensagem cara aos adolescentes. “É algo como seja você mesmo, independentemente do que os outros queiram que você seja”, demarca o diretor.
Não foi exclusivamente a busca apenas do público mais jovem que motivou Fernando, que mirou na família: “Brincava que era um filme da Pixar (famosa pelas animações), só que de live-action”. Elementos que facilitam o envolvimento de jovens no enredo vem da duração mais ágil. “Acho que os jovens, por estarem tão expostos às redes sociais desde pequenos, ficam mais imediatistas.

Para o alcance universal do filme, a gente preparou piadas, ideias e usamos códigos diferenciados. Há alguns códigos vindos da internet: tem memes até não poder mais (risos). E ainda tem o fator da gastronomia que, aliás, vai muito bem no Instagram, por exemplo (na tela do cinema), e as pessoas gostam de ver pratos sendo feitos”, enumera o diretor de Abe.

Presente em quase todas as cenas de Abe, o ator Noah Schnapp (o Will Byers da série da Netflix Stranger things) também serve como chamariz para o público mais jovem. “Só tenho elogios muito sinceros e rasgados para ele, que estudou muito, muito o papel. Tinha domínio total do roteiro”, enaltece o diretor.

Outra produção independente que dialoga com o mercado consumidor teen, a animação O pergaminho vermelho, primeira produção brasileira adquirida pela Disney +, depois de circular entre festivais, traz o apelo da dublagem de Any Gabrielly. Cantora (do pop global, com o grupo Now United), atriz de série do Gloob, e protagonista (na dublagem) de Moana (2017), da Disney, Gabrielly, em O pergaminho vermelho, dá voz à personagem Idril, em trabalho desenvolvido na adolescência dela.

“Acho que a presença dela traz mais visibilidade e conversa com o público teen”, aposta o diretor da obra Nelson Botter Jr. O pergaminho vermelho, como explica Botter Jr., “ficou bem adequado à linha editorial do que a Disney+ busca”.

Criado na Tortuga Estúdios, foi feito com a metade do orçamento idealizado e parte do dinheiro tirado do bolso; tudo esforço para contar a trajetória de Nina, protagonista ainda dona de certas reações infantis. “O filme tem a preocupação com a criança na transição para a adolescência.

Não pensamos em aumentar o público, ao falar de empoderamento feminino. Tudo foi idealizado há 10 anos, quando movimentos atuais ainda não se revelavam ou estavam muito no começo. Tudo partia de uma menina meio molecona (a Nina), que gosta de esportes, anda de skate. Tem personalidade forte e descobre o amor”, comenta o diretor Nelson Botter Jr.

Na jornada de descobertas, Nina viverá situações detidas no folclore, além de companhias especiais como o bicho-preguiça Wupa e a destemida curupira e indígena Idril, uma heroína de 15 anos. A expectativa é de que o filme também alcance os adultos, “mas é uma diversão junto com as crianças, longe da intenção de priorizá-los”, diz o diretor.

Familiarizada

Quando tinha 14 anos, a produtora de cinema Paula Barreto lembra de ter “amado” um filme por ter retratado muito bem uma realidade bem distante da que vivia, convivendo com os pais, os também produtores de cinema Lucy e Luiz Carlos Barreto, hoje em dia, unidos por 67 anos de casamento.

“Tati, a garota tinha na protagonista uma criança filha de uma mãe separada, que para a época, era raro, e havia as dificuldades de adaptação dela na mudança de bairro e de amigos”, conta a produtora, que relembra um filme do irmão Bruno Barreto. Ambos, atualmente, desenvolvem o projeto Vovó Ninja, justamente dedicado à diversão infantojuvenil, e estrelado por Glória Pires.

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Ainda existe defasagem de conteúdo teen no Brasil? Para a formação de público, crê que o streaming seja o meio mais pertinente?
Não existe defasagem, ao contrário: existe uma demanda praticamente ininterrupta por esse tipo de conteúdo e que é atendida. Essa geração é a que mais consome filmes e séries nas plataformas de streaming e que também vai aos cinemas, portanto faz todo o sentido para a indústria acompanhar essa demanda e oferecer projetos de qualidade. Além disso, a formação de público acontece independentemente da plataforma em que é exibido porque o que importa para os adolescentes são as histórias. Os temas de interesse dessa faixa etária são universais (os amigos, os amores, as rejeições, as dúvidas) e os conteúdos servem como um espelho para lidar com esses dilemas.

Para nossa distribuidora, o mais importante é investir e levar essas histórias, especialmente as que já têm uma base consolidada de fãs na literatura, para o cinema a fim de construir nos jovens o hábito de consumo que o tornará um moviegoer.

O mercado teen é abrangente em termos de resultados?
Sim, é animador e 50% dos filmes nacionais que a Galeria Distribuidora lançou até o momento foram direcionados para esse público. O mercado teen é um dos que mais apresenta bons resultados em termos de bilheteria, além de retorno de investimento. Estamos trabalhando com o público que é fortemente impactado pelos formadores de opinião, os influencers, e que, apesar do poder de consumo restrito, tem o hábito de procurar e assistir produtos audiovisuais.

Fazendo meu filme, uma futura aposta, trará a Bela Fernandes e Paula Pimenta. Meninas e moças têm que perspectiva em termos de bilheteria?
O empoderamento está intrínseco a essa história e esse é um tema extremamente relevante nas produções atuais. O olhar sobre a “princesa”, sobre a heroína, mudou e, logicamente, as produções audiovisuais estão acompanhando essa transformação. Trabalhar com nomes fortes e relevantes como Bela Fernandes e Paula Pimenta — que somam cerca de 9 milhões de seguidores somente no Instagram — nos permite também contar com uma espécie de assinatura de que o conteúdo do filme será atraente àquelas pessoas que se interessam por uma boa história, já consolidada como um best-seller, e que também as admiram como porta-vozes expoentes (cada uma em sua profissão) da nossa sociedade.

» Em breve

Acampamento intergaláctico
A partir do canal do yotuber Gato Galáctico, de Ronaldo Souza, foi concebido o roteiro de Fabrício Bittar. Mobilizando mais de 4,5 bilhões de visualizações, Ronaldo vive, no filme, um garoto obcecado pela existência de extraterrestres.

Fazendo meu filme
Bela Fernandes é a protagonista do filme em que uma adolescente, louca por cinema e na fila por intercâmbio no exterior, dá de cara com o primeiro amor. Adaptação da obra de Paula Pimenta.