Vai comprar brinquedo para o Dia das Crianças? Veja o dizem especialistas para evitar acidentes

Pesquisa do Procon-SP mostra que segurança vem depois de preço e desejo dos pequenos na hora da escolha do presente

Criança brincando com blocos de montar: adultos precisam supervisionar a brincadeira e escolher produtos pela sua segurança Foto: Reprodução
Criança brincando com blocos de montar: adultos precisam supervisionar a brincadeira e escolher produtos pela sua segurança Foto: Reprodução

A segurança não é prioridade na hora da compra de brinquedos . Essa é a conclusão de pesquisa on-line feita pelo Procon-SP , divulgada com exclusividade pelo GLOBO. Cerca de 70% das pessoas que responderam ao levantamento declararam que o desejo da criança (39,6%) e o preço (32,3%) são os atributos mais importantes na hora da escolha. A segurança ficou em terceiro lugar (28%). Também é alarmante o fato de apenas 20% considerarem imprescindível o brinquedo ter certificado do Inmetro.

A menos de uma semana do Dia da Criança, o resultado da pesquisa fez o Procon-SP organizar uma operação no comércio popular paulistano para alertar os consumidores sobre os riscos para os pequenos:

— As pessoas têm que entender, por exemplo, que um brinquedo certificado pelo Inmetro passa por uma série de testes, que vão garantir desde que o item não seja tóxico até que não quebre em partes pontiagudas. Os adultos podem estar submetendo as crianças a riscos que vão de um pequeno corte a sufocamento, mutilações e até morte — alerta Marcus Vinicius Pujol, diretor da Escola de Defesa do Consumidor do Procon-SP.

O resultado da pesquisa surpreendeu também o diretor de Avaliação da Conformidade do Inmetro, Gustavo Kuster :

— Queremos analisar os dados para entender quem respondeu à pesquisa, pois levantamentos anteriores mostravam uma relevância muito maior do selo para o consumidor. É muito preocupante se a realidade for esta.

Selo pode ganhar aplicativo

Já o presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista da Costa, avaliou de forma extremamente positiva o fato de os consumidores não darem tanta atenção ao selo do Inmetro:

— As pessoas não olham mais se tem ou não selo porque sabem que todos os brinquedos no mercado são seguros. Isso deixou de ser uma preocupação. Em 12 meses não terá mais selo na embalagem, o importante é saber quem é o fabricante, pois somos nós os responsáveis se houver acidente.

De fato, o fabricante é responsável em garantir a segurança do produto, diz Kuster. No entanto, ele nega veemente que o selo será extinto:

— Muito pelo contrário, a ideia é evoluir o selo, que não seja só uma marca impressa, mas que, por um aplicativo, ou um QR code, por exemplo, o consumidor tenha acesso mais amplo ao que está por trás da certificação.

Para Vania Schoemberner, gerente executiva da ONG Criança Segura, muitas pessoas ainda não se deram conta de que brinquedo também é fonte de risco.

—Em 2017, 777 crianças morreram por sufocamento. Não sabemos ao certo quantas por engolir partes de brinquedos, pois isso não é especificado pelo hospital, mas é um relato frequente. Há três coisas simples que podem reduzir em 90% os acidentes: supervisão de adultos, adaptação do ambiente à criança e uso de equipamentos de segurança, como capacetes — orienta Vania.

A médica Luci Yara Pfeiffer, do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), se preocupa também com o fato de cerca de 30% dos participantes da pesquisa não verificarem sempre a faixa etária indicada para o item:

— Brinquedo é coisa séria. É preciso ter muito cuidado ainda com o que se vê na internet. Em receitas de slime na web, por exemplo, há um componente tóxico que pode levar a dano neurológico.

Luci faz ainda outro alerta:

— Celular não é brinquedo. Até 2 anos, as crianças não devem ter contato com telas, incluindo de TVs e tablets. Isso atrasa o desenvolvimento motor, causa isolamento social. Mais o risco de acidentes, já que esses itens não são pensados para uso por crianças.

Em 5 anos, dois recalls

Os acidentes com brinquedos e jogos estão entre os três mais relatados pelos países-membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Só na União Europeia, entre 2014 e 2018, foram feitos 620 recalls de brinquedo por ano. No Brasil, no mesmo período, houve só duas campanhas, segundo a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Para o presidente da Abrinq, o baixo número de convocações se deve, em parte, ao fato de o mercado brasileiro ser mais seguro que o europeu e o americano:

— Não entra um brinquedo no mercado nacional sem que passe por teste — diz Batista.

O titular da Senacon, Luciano Timm, porém, não acredita que essa seja a causa principal do baixo número de recalls no país. Entre várias explicações possíveis, ele cita falta de consciência das empresas, ineficiência estatal, ausência de receio de punição e de controle de consumidores.

Outro problema é a falta de um sistema de alerta que monitore acidentes de consumo nos hospitais, diz Paulo Coscarelli, coordenador de Vigilância de Mercado do Inmetro:

— A criação da rede com os hospitais é primordial e será tratada na reunião da Comissão Permanente de Acidentes de Consumo, na próxima semana. Fazemos várias ações de monitoramento de segurança no país e no exterior, mas esses dados é que nos darão uma fotografia precisa do que acontece no Brasil.

Outro ponto fundamental é o relato feito por consumidores ao Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo (Sinmac).

— Essa é a principal fonte de informação. Se ele restringe o caso a uma discussão em família ou redes sociais, está perdendo a oportunidade de evitar que o mesmo aconteça a outras crianças — destaca Ana Valérica Silva, responsável pelo Sinmac.

Confira as dicas de especialistas

Na hora da compra:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

Não compre brinquedos no comércio informal. Além de riscos visíveis, há o de toxidade. Exija o selo do Inmetro. Montar e desmontar brinquedos é tarefa para adultos. Em qualquer idade, supervisão é fundamental.

Risco de sufocar:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

Para as crianças de 0 a 3 anos, os principais cuidados são com aspiração e sufocamento. Isso demanda atenção desde o móbile do berço. A SBP ressalta que qualquer peça com diâmetro inferior a 1,5 cm representa risco.

Bicicleta e patinete:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

Desde pequena, acostume a criança a usar equipamento de segurança. Verifique se o capacete é certificado, adequado à idade, e mantenha-o bem preso para que, de fato, proteja a cabeça em caso de queda.

Desde pequena, acostume a criança a usar equipamento de segurança. Verifique se o capacete é certificado, adequado à idade, e mantenha-o bem preso para que, de fato, proteja a cabeça em caso de queda.

Idade indicativa:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

A orientação leva em conta o desenvolvimento da criança e a segurança para aquela faixa etária. Se há crianças de idades diferentes em casa, redobre o cuidado e a vigilância, e procure guardar os itens separadamente.

Celular e tablets:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

Até 2 anos, diz a SBP, a criança não deve ser exposta a qualquer tipo de tela. Além de causar danos à visão e do risco de acidentes, o uso de celulares e tablets provoca isolamento social e atraso no desenvolvimento motor.

Se houver acidente:

. Foto: André Mello
. Foto: André Mello

Caso ocorra um acidente ou se constate risco em algum brinquedo, comunique ao médico, ao fabricante e não deixe de relatar no Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo(www.inmetro.gov.br/sinmac).

Fonte: O Globo